Durante a Semana de Arte, Cultura e Conhecimento (SEMACC), do Colégio
Marista Pio X, foi promovido o projeto “O Cinema dos Hermanos”. Nesse
momento, foram assistidos os filmes: Nostalgia da Luz, O Gigante e Um
conto chinês”. Uma das marcas em comum desses filmes é o rompimento com o
cinema de Hollywood uma vez que há uma valorização da simplicidade e a
produção sem exageros e adornos.
O documentário chileno
“Nostalgia da Luz” (2010), dirigido por Patrício Guzmán, retrata alguns
efeitos do Regime de Augusto Pinochet (1973-1990) para muitas famílias
que tiveram seus entes torturados e desaparecidos, e, ainda hoje,
procuram os restos materiais de objetos e de partes dos corpos. O longa
relaciona a astronomia e a arqueologia, ao comparar a busca por indícios
da evolução, através dos cosmos tão distantes, e os vestígios, como
fósseis, presentes na própria terra. Essa relação é evidenciada na
passagem do filme em que se interliga o cálcio que forma as estrelas ao o
mesmo cálcio que compõe os nossos ossos.
Já o filme ficcional
argentino “Um Conto Chinês” (2011), dirigido por Sebastián Borensztein e
estrelado por Ricardo Darín, mostra a história de Roberto, um homem
solitário e preso amargamente à sua rotina. No entanto, sua vida toma
outro rumo com a chegada de Jun, um chinês que vai à Argentina à procura
de um tio após ter acontecido um fato inusitado em sua vida: uma vaca
caiu sobre a cabeça de sua noiva, matando-a. A entrada de Jun despertou
uma sensibilidade em Roberto, até então desacreditado no real sentido da
existência.
Ambos os filmes, apesar da divergência quanto ao
formato, (o primeiro trata-se de um documentário real e o segundo de uma
ficção baseada em um fato real e curioso ocorrido na China),
aproximam-se na relação com o passado. Isso é visível tanto em Roberto,
que vive as lembranças dos pais que já faleceram, como nas esposas e
irmãs das vítimas da Ditadura Chilena, que procuram há anos no deserto
do Atacama alguma recordação, e também nos astrônomos, que pesquisam a
origem da vida e o funcionamento dos corpos celestes.
Nos dois
longas a presença da rotina é marcante. Em “Nostalgia da Luz”, as
mulheres expressam a sensação de obrigação de encontrar os restos de
seus parentes no deserto há tantos anos. Já em “Um conto Chinês”,
Roberto cultiva as mesmas ações: o trabalho na sua loja de ferramentas, a
coleção de notícias bizarras que o pai fazia e de objetos de vidro que a
mãe
tinha, e o deitar sempre às vinte e três horas. Além disso,
Roberto encontra-se tão preso ao cotidiano e ao tempo, que não percebe
as oportunidades que perdeu. Fecha-se para o amor, desprezando Mari, uma
moça filha de seu amigo, que tenta um relacionamento com ele.
Outra característica de forte presença nos filmes é a esperança
associada à persistência. Em "Um Conto Chinês" pode-se observar esse
fato na procura pelo tio de Jun, uma vez que o chinês estava sozinho e
não sabia sequer falar o idioma local. Já em “Nostalgia da Luz”, de
forma esperançosa, porém triste, há a expectativa de encontrar pequenos
pedaços que levem as mulheres à memória de seus familiares, mesmo que
não os tragam de volta, interligada a um posterior sentimento de alívio e
dever cumprido, caso a procura se efetive.
Entretanto, o fator
mais impactante entre os dois filmes que deve ser ressaltado é o
humanismo. No documentário, ele é visto claramente com a importância que
se dá para as lembranças de família e ao mesmo tempo ao não
esquecimento dos horrores da ditadura. Na ficção, Jun desperta em
Roberto preocupação, cuidado e vontade de ajudar. Além de fazê-lo
procurar mudar de vida, entregando-se para mundo e para aqueles que com
ele se importam. Além disso, ambos os filmes retratam dois
acontecimentos históricos que desestabilizaram milhares de famílias. Em
“Nostalgia da Luz” está presente nos efeitos da Ditadura de Pinochet
(que levou à situação daquelas mulheres, citada nos parágrafos
anteriores). Já em “Um Conto Chinês”, mostra-se as consequências da
Guerra das Malvinas para Roberto, que após a morte dos pais praticamente
deixou de viver.
O filme uruguaio “O Gigante” apresenta algumas
semelhanças em comum com as já citadas entre os outros filmes. Nele, o
segurança de supermercado Jarita, acostumado com uma vida monótona e
sedentária, transforma-se completamente ao se apaixonar por uma
funcionária da limpeza apenas observando-a pelas câmeras de segurança. O
rapaz muda a sua rotina e passa a viver em função da moça, como em
“Nostalgia da Luz”, em que a necessidade de encontrar o passado é a
principal atividade, tanto para a astronomia, como para a arqueologia e
para as mulheres. Também é notável a persistência das mulheres com a de
Jarita, que mesmo ao se impressionar com a vida equilibrada de Julia,
luta para estar ao lado dela.
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