Gigante, dirigido pelo cineasta radicado no Uruguai, AdriánBiniez,
recebeu vários prêmios no Festival de Gramado e no Festival de Berlim. É
uma comédia romântica totalmente oposta ao estilo hollywoodiano. Jara, o
segurança de um supermercado, tem sua rotina totalmente modificada
quando, ao observar as câmeras, vê uma das faxineiras derrubar uma
enorme pilha de papéis higiênicos, a princípio, acha muito engraçado,
mas quando percebe que o gerente ameaça despedi-la, Jara parece se
sentir atraído pelo desajuste e ingenuidade da moça. Uma espécie de amor
platônico surge e faz com que ele passe a acompanha-la através das
câmeras. No entanto, Jara se torna tão obsessivo que além de persegui-la
pela cidade, invade a sala de arquivos do supermercado e acaba
finalmente descobrindo seu nome, Júlia. Por sua tamanha insegurança,
Jara só fala de fato com Júlia no final do filme, após ambos terem sido
demitidos do supermercado. Biniez, de maneira impressionante, faz com
que cada telespectador tire suas próprias conclusões a respeito de como
se dará o relacionamento dos dois.
Um conto chinês, do diretor
SebastiánBorensztein, protagonizado porRoberto (Ricardo Darín) é uma
comédia original, baseada em fatos reais. O filme começa com uma vaca
caindo do céu em cima da noiva de Jun (Ignacio Huang), quando ele estava
prestes a pedi-la em casamento. Quão absurdo isso pode ser?
Praticamente do outro lado do mundo, Roberto, um comerciante preso a sua
rotina monótona é colecionador de notícias inusitadas e um dos itens de
sua coleção é a história de Jun. Aparentemente sem família, Jun vai
para
Argentina procurar seu tio, o único problema é que ele não
sabe uma só palavra em espanhol. Quando Roberto encontra o chinês
perdido pelas ruas, acaba hospedando-o em sua casa, esperando livrar-se
logo dele. Inúmeras confusões acontecem por não conseguirem se comunicar
verbalmente, mas ao longo do filme é impossível não perceber que
Roberto tem dificuldade de se comunicar, não só com Jun, mas com todos a
sua volta, principalmente a cunhada do seu amigo, Mari, um linda mulher
que é apaixonada por ele. Jun começa a modificar a forma como Roberto
vê mundo pouco a pouco, e mesmo disfarçando, uma linda amizade começa
entre os dois. No início, Roberto acredita que as coisas da vida não
fazem sentido, mas Jun prova que não é mera coincidência os dois terem
se conhecido e Roberto finalmente percebe que precisa mais do que nunca
se abrir ao novo romance.
Comparando as histórias de ambos os
filmes, é de extrema importância dar enfoque a um dos temas que os
entrelaçam: A busca pela renovação da humanidade. Tomando como base o
pensamento filosófico de Rousseau, em que o homem nasce bom por natureza
e a sociedade o corrompe, Jun e Júlia fazem o oposto com Roberto e
Jara.
Em O Gigante, Jara demonstra amadurecimento social,
irredutível, um homem que é cheio de malícias, que após se deparar com a
cômica cena de Júlia derrubando a pilha de papéis, ao decorrer do
tempo, se coloca no lugar dela e amadurece de acordo com os princípios
expostos por ela. O amadurecimento é tão profundo que se torna
espiritual. Jara se apaixona pela moça justamente por ela ser inocente.
Já em Um conto chinês, Roberto que é dono de uma pequena loja de
ferragens herdada logo após a morte de seu pai, é levado à um mundo cujo
a rotina prevalece. Dormir diariamente às 23h, ir à floricultura todos
os sábados comprar flores pra deixar no túmulo de seus pais, e tudo isso
muda completamente com a chegada de Jun. É de grande percepção a
resistência de Roberto à presença de Jun, que aos poucos faz florescer
dentro
do coração sofrido e desesperançoso, a idéia de que a vida
vive uma constante renovação, tal como é feito em O Gigante por Júlia.
Roberto e Jara apesar de muito diferentes, tem mais semelhanças
do que aparentam. Os dois são presos e acomodados a rotinas monótonas,
até que por um fato incomum são levados a rompê-las, seja por uma paixão
ilógica, ou por um visitante improvável. Apresentam desde o início dos
filmes baixa sociabilidade, com dificuldade de manter relacionamentos
com outras pessoas e apesar de serem protagonistas, possuem períodos
curtos de fala, caracterizando ainda mais sua personalidade reservada.
Os
finais dos filmes apresentam algumas semelhanças: em ambos, os
diretores fazem questão de deixar em aberto o que acontece com os
casais, cabe ao espectador tirar suas próprias conclusões. Não se sabe
ao certo se Júlia corresponde aos sentimentos de Jara ou se Mari ainda
está disposta a relevar os erros de Roberto.
Tanto Um Conto
Chinês, quanto O Gigante exploram o lado emocional e espiritual, porém
de maneiras diferentes. Nota-se também uma semelhança gigante com o
filme Belga, dirigido por Jaco Van Dormanel, Le Huitième Jour (O Oitavo
Dia), que serviria como complemento para uma reflexão um pouco mais
profunda.
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