Resenha sobre “Gigante” e “Um conto chinês”
Nós estamos muito acostumados aos modelos de filme “hollywoodianos”.
Assistir a filmes latinos provocou um pouco de estranheza no princípio,
mas ao fluir do enredo novas visões sobre essas produções surgiram. São
filmes simples, mas de boas histórias e acontecimentos inesperados.
O filme do diretor argentino, porém radicado no Uruguai, Ádrian Biniez,
“Gigante”, foi vencedor de melhor roteiro, melhor ator e prêmio da
crítica no Festival de Cinema de Gramado e Urso de Prata de obra
estreante no Festival de Berlim, só por esses prêmios já dá para
perceber que se trata de um bom filme. A película uruguaia mostra a
história de Jara, o “gigante”, segurança de um hipermercado que tem uma
vida entediante – tédio que é passado para os telespectadores pela
história lenta e sem grandes emoções -. Lá ele se apaixona pela
faxineira Julia, que nem sabe sobre a existência do segurança, e, por
ser muito introvertido, tem dificuldade para se aproximar dela. Para se
sentir mais próximo da moça, Jara começa a acompanhá-la através das
câmeras de segurança. Esse amor platônico do protagonista faz com que a
sua rotina vire uma perseguição um tanto engraçada quanto doentia por
Julia. Durante o filme, as tomadas são bem simples e as falas são poucas
e curtas - o próprio protagonista fala muito pouco - dando grande
ênfase às demonstrações faciais e linguagens visuais.
Um Conto
Chinês é uma produção argentina de 2011, dirigida por Sebastián
Borensztein e protagonizada por um dos mais famosos artistas
latino-americanos: Ricardo Darín. A comédia foi um grande sucesso e
venceu vários prêmios, dentre eles o de melhor filme nos Prêmios Goya e
Festival de cinema de Roma. O segredo para o entretenimento do publico
com a obra, foi a de fazer Roberto (Darín), um cinquentão dono de uma
loja de ferramentas, colecionador de noticias inéditas sobre mortes
bizarras e que mora sozinho, se deparar pela frente com um chinês, Jun,
que não fala absolutamente nada de espanhol, perdido nas ruas de Buenos
Aires, abandonado por um taxista. Roberto, por ser um homem honesto,
cede ajuda ao jovem asiático. A partir daí segue-se uma trama
completamente engraçada entre duas pessoas com mundos completamente
distintos, Roberto é um ex-fuzileiro que possui traumas da Guerra da
Malvinas, e desde então “parou” no tempo vivendo numa mesma rotina, sem
inovações, enquanto Jun, que veio para a Argentina em busca do seu tio, é
um rapaz extremamente tímido e esconde uma historia inusitada sobre a
morte de sua namorada. O longa nos mostra como uma pessoa de costumes,
cultura e estilo de vida diferente, vindo de tão distante, pôde
modificar vida do outro. Deixando bem esclarecido a reação de Roberto
com diversas atitudes de Jun, principalmente no final, onde há a
evidencia da formação de um laço de companheirismo e retribuição.
Ao
assistir a essas aclamadas obras cinematográficas sul-americanas,
podemos perceber que elas não estão tão longe de serem comparadas com as
produções de Hollywood, os jogos de imagens e os cortes de cenas,
apesar de serem simples, não deixam nada a desejar. Tomando o enredo
como análise, tanto Gigante como O Conto Chinês trazem consigo reflexões
destinadas aos espectadores, e apresenta algumas semelhanças e
diferenças entre si. Observamos o quão difícil é a rotina de Jara, o
trabalho contínuo e cansativo o força a não ter vida social ativa.
Pode-se comparar o cotidiano de Roberto, que também segue sempre as
mesmas tarefas todos os dias, dorme no mesmo horário e não tem muita
paciência com os clientes da loja, ao de Jara. Ambos não têm tempo para
si, folgas ou diversão, deixando cada vez mais a condição de trabalhador
ser dominante em suas vidas. E na vida dos dois protagonistas essa
rotina chata e entediante é rompida, gerando até alguns acontecimentos
engraçados durante o filme, em um por uma paixão, em outro pela chegada
de um chinês.
Outro ponto em comum entre os dois filmes é a
relação dos protagonistas com suas paixões, ambos têm certo receio de se
aproximar da mulher amada. Jara, mais introspectivo, não consegue nem
falar com a moça, já Roberto é assediado constantemente por Mari, mas
não cede de forma alguma aos desejos da mulher. Durante as filmagens, as
imagens de homens rudes e grosseiros são desfeitas, mostrando um outro
lado da pessoa. Jara, o segurança roqueiro e grandão se torna uma
criança apaixonada, e Roberto, também muito austero, é emocionado por
uma amizade inesperada com o chinês.
Desse modo, vemos como
essas duas produções são parecidas em alguns pontos. Apesar de serem
produções feitas com poucos recursos comparadas às produções
hollywoodianas, não deixam muito a desejar e conseguem fazer seus
espectadores rirem, se emocionarem e se sentirem dentro do próprio
filme.
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